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Paciente sai de hospital psiquiátrico e vai para casa após 55 anos internado

Paciente sai de hospital psiquiátrico e vai para casa após 55 anos internado

José Santiago passou a maior parte da vida no Complexo Juquery.
Idoso de 89 anos dividirá Residência Terapêutica em Sorocaba (SP).

Mayara CorrêaDo G1 Sorocaba e Jundiaí









O olhar sereno de um idoso não condiz com a postura do paciente que passou 55 anos longe da família enquanto estava internado em um dos complexos psiquiátricos mais conhecidos do Brasil, o Juquery, em Franco da Rocha (SP). José Santiago é de Sorocaba e tem 89 anos, metade deles passados dividindo o quarto com 40 pessoas. 

Diagnosticado com esquizofrenia aos 34 anos, Santiago foi levado para Juquery dentro de um veículo da polícia em 1961, o que era comum na época. “Eu tinha 10 anos de idade e lembro do carro parando em frente a minha casa. Os policiais pegaram o meu tio e fui com o meu pai até São Paulo para acompanhar. Naquela época não tinha o que fazer”, conta o sobrinho Antônio Lopes Machado Filho, de 66 anos.
Ele não sabia, mas na sua cidade natal, localizada a cerca de 115 quilômetros do hospital, os seus familiares guardavam as lembranças de um jovem alegre, no entanto, tinham marcado também o triste momento de sua partida.

Nesta terça-feira (25), a distância deixou de existir, já que Santiago se mudou para uma Residência Terapêutica (RT) em Sorocaba, onde viverá com mais nove pacientes.
Sobrinhos Vicente e Antônio em visita ao tio (ao centro), em Juquery (Foto: Arquivo pessoal)Sobrinhos Vicente e Antônio em visita ao tio
(ao centro), em Juquery (Foto: Arquivo pessoal)
O aposentando lembra ainda que a família ficou 30 anos sem notícias do idoso, mesmo depois de ter ido ao complexo para visitá-lo. Após o reencontro, ainda no hospital, as visitas passaram a ser frequentes, inclusive com direito a passeios. Na residência em Sorocaba, ele receberá assistência 24 horas com a presença de cuidadores, enfermeiros e psicóloga. 
Expectativa
Minutos antes da chegada do novo morador da casa, o clima era de ansiedade. Assim que desceu do carro, o paciente abraçou os sobrinhos e subiu sozinho a rampa da nova moradia. Apesar de não se lembrar do próprio nome e falar bem pouco, Santiago queria conhecer a casa e foi até o quarto que vai dividir com mais dois pacientes.
Santiago vai comemorar 90 anos em janeiro ao lado da família  (Foto: Emílio Botta/G1)Santiago vai comemorar 90 anos em janeiro ao lado da família (Foto: Emilio Botta/G1)
No cômodo, falou o nome da cidade que passou tanto tempo sem ver e do bairro George Oeterrer, de Iperó (SP). Questionado sobre a lembrança, disse que morou no distrito, fato desconhecido pelos familiares. O outro sobrinho de seu Santiago, Adenil Lopes Machado, irmão de Antônio, disse que tinha três anos quando o tio foi levado. “Chegamos a achar que ele estava morto,” afirma.

Antônio conta que era o mais próximo do tio, de quem herdou a aparência física e a fala serena. “Ele era tranquilo, alegre, mas começou a se xingar e achar que todo mundo da rua era ruim.” Foi durante uma das visitas em Juquery que o aposentando conseguiu resgatar pelo menos uma memória de Santiago. “Chamei ele de tio Nêne, apelido dele na época. Ele olhou para mim. É afinidade de família, não tem como explicar”, diz emocionado.
 
“Chamei ele de tio Nêne, apelido dele na época. Ele olhou para mim. É afinidade de família, não tem como explicar”
Antônio Lopes Machado Filho,
sobrinho de Santiago
Vida nova
As algumas mudas de roupas do hospital, medicamentos e prontuário são tudo o que Santiago juntou em 55 anos e trouxe de Juquery para Sorocaba. Para reforçar a mudança de rotina, vai ganhar novas vestimentas. Os cinco familiares que o receberam na RT afirmam que as visitas serão frequentes.
Prestes a completar 90 anos, no próximo dia 21 de janeiro, Santiago vai receber o abraço da família e conhecer as novas gerações, que não puderam conviver com ele ainda jovem, quando trabalhava de pedreiro e levava doces aos sorinhos. Quando ainda sonhava com um futuro diferente.

Reforma psiquiátrica
Por determinação de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público (MP) e Ministério da Saúde, até o fim de 2016 a Prefeitura de Sorocaba deve fechar o único hospital psiquiátrico ainda em funcionamento, o Vera Cruz. Atualmente, o hospital abriga 357 pacientes e, desde janeiro deste ano, 95 pessoas tiveram alta. Enquanto algumas voltaram ao convívio da família, outras mudaram para RTs, assim como o Santiago.

A cidade foi escolhida para ser referência no processo de desinstitucionalização dos pacientes por ser considerada um polo de hospitais psiquiátricos do país. Em 2012, junto com Salto de Pirapora e Piedade, eram 1.843 pacientes. Desde o início da transição, 142 pessoas saíram para morar em uma das  26 RTs instaladas em Sorocaba, onde recebem cuidados diários de uma equipe multidisciplinar.

Segundo a supervisora da Secretaria de Saúde da cidade, Talita Cristina de Moraes, cada casa pode abriga até 10 pacientes. “Todos passam por um processo de adaptação e também frequentam o CAPS. Esta casa é muito especial porque todos ajudam nas atividades domésticas”, diz referindo à nova moradia de Santiago. Talita ressalta que o idoso, finalmente, terá uma vida sem regras rígidas, horário para acordar e tomar café, por exemplo. "Vai ter autonomia para fazer as próprias escolhas", finaliza.
Santiago recebe o carinho dos outros nove pacientes da Residência Terapêutica  (Foto: Emílio Botta/G1)Santiago recebe o carinho dos outros nove pacientes da Residência Terapêutica (Foto: Emilio Botta/G1)

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