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Mais de 400 mil pessoas acompanharam a marcha em Buenos Aires, nesta quarta-feira (18), convocada para homenagear o promotor Alberto Nisman, morto misteriosamente há um mês, informou a Polícia da capital.


Mais de 400 mil pessoas acompanharam a marcha em Buenos Aires, nesta quarta-feira (18), convocada para homenagear o promotor Alberto Nisman, morto misteriosamente há um mês, informou a Polícia da capital.

"Foram mais de 400 mil pessoas na marcha" em Buenos Aires, disse uma fonte da Polícia Metropolitana, subordinada à prefeitura.

O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, de oposição, é o candidato da direita às eleições de 25 de outubro no país.

Já a Polícia Federal, que responde ao governo, calculou o multidão da marcha em 50 mil pessoas.

Batizada nas redes sociais de "a marcha dos guarda-chuvas", pela forte chuva que caía, a grande passeata transcorreu sem incidentes e em tranquilidade, no trajeto que separa o Congresso de Buenos Aires e a Praça de Maio, em frente à sede do governo.

O ato foi convocado por seis promotores opositores ao governo de Cristina Kirchner.

"Homenagem ao promotor Alberto Nisman", dizia um cartaz gigante exibido pelos promotores que convocaram essa manifestação de 1,7 km. O protesto contou com a adesão maciça da classe média da capital argentina.

Pingando da cabeça aos pés, os promotores e a ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, e as duas filhas que ela teve com o promotor, de 15 e sete anos, foram aplaudidos ao serem reconhecidos pela multidão.

Em ordem, respeitando o lema do silêncio, casais e, sobretudo idosos, soltaram a voz apenas para pedir justiça, ou murmurar trechos do hino nacional.

"Estou aqui para pedir que haja justiça por esse pobre homem que deu a vida pela verdade", disse à AFP a professora Marta Cánepal, de 65 anos.

Era impossível distinguir entre os oito pré-candidatos presidenciais opositores para as eleições de outubro e os representantes da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) que participavam da marcha.

Em outras cidades argentinas, como Santa Fé e Mar del Plata, centenas de cidadãos também aplaudiam nas praças em solidariedade.

O ato teve réplicas também em frente às embaixadas argentinas em Brasil, Espanha, Itália, França, Austrália, Israel, Chile e Uruguai.

Para o sociólogo e diretor da consultoria Nueva Mayoría, Rosendo Fraga, "a marcha é um catalisador de reivindicações subjacentes na sociedade, como a impunidade".

O governo criticou o protesto, considerando-o parte de uma manobra "golpista", e afirmou que a denúncia do falecido promotor Alberto Nisman contra Cristina Kirchner e outros membros do alto escalão do governo é uma tentativa de envolver o país no conflito do Oriente Médio.

"Peço que abram bem os olhos. Não estou falando de conspirações. É um mundo de interesses", declarou Kirchner em um ato público transmitido em rede nacional horas antes da manifestação.

Ao inaugurar a ampliação de uma central nuclear 150 km ao norte de Buenos Aires, a presidente sugeriu que a passeata responde a interesses voltados para fazer fracassar as políticas de seu governo. Entre essas políticas, elas destacou a produção de urânio enriquecido para fins pacíficos.

A origem do caso, que envolve uma confusão judicial e política, é a explosão que destruiu sede da Amia, em 1994. O ataque deixou 85 mortos e 300 feridos.

Nisman foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento em 18 de janeiro, com um tiro na cabeça de uma pistola calibre 22 emprestada por um colaborador. Havia apenas uma bala no chão, e o corpo obstruía a porta.

Na Argentina quase ninguém acredita na hipótese de suicídio. Nisman havia acusado Cristina Kirchner quatro dias antes e, na manhã seguinte de sua morte, deveria justificar a denúncia no Congresso.

Em 2005, com o apoio do falecido ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), Nisman acusou ex-governantes iranianos, entre eles o ex-presidente Ali Rafsanjani, de envolvimento no atentado contra a Amia.

Em 2013, Cristina Kirchner assinou um acordo com o Irã para criar uma comissão de investigação integrada por juristas que não fossem nem argentinos, nem iranianos, para levar os acusados ao banco dos réus.

Nisman e a numerosa comunidade judaica discordaram do acordo e alegaram que Teerã não era confiável.

Na acusação contra Kirchner, apresentada na sexta-feira pelo promotor Gerardo Pollicita, Nisman disse que a presidente tentava livrar os iranianos das acusações, em troca de petróleo, apesar de o combustível de Teerã ser incompatível com as refinarias argentinas.

Outro argumento é que Kirchner pediu a retirada dos pedidos de captura internacional contra os iranianos. A Interpol negou a acusação.

"Não há nenhuma prova que mostre que a presidente, ou o ministro (das Relações Exteriores, Héctor Timerman), ou alguém mais oferecia impunidade aos autores do atentado", disse o ex-procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI) Luis Moreno Ocampo.

Moreno Ocampo considera que a passeata deve ser usada para pedir a reformulação dos serviços de Inteligência, "que vêm da ditadura (1976-83) e são inaceitáveis em uma democracia".

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